Pallade Veneta - Inflação e desvalorização, os inimigos reais da economia venezuelana

Inflação e desvalorização, os inimigos reais da economia venezuelana


Inflação e desvalorização, os inimigos reais da economia venezuelana
Inflação e desvalorização, os inimigos reais da economia venezuelana / foto: Federico PARRA - AFP

Navios de guerra dos Estados Unidos no Caribe ameaçam o governo de Nicolás Maduro. Mas para muitos venezuelanos, os verdadeiros inimigos no dia a dia são a desvalorização do bolívar e a inflação, que dispararam.

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O bolívar caiu mais de 70% em relação ao dólar no ano. O FMI, por sua vez, projeta para a Venezuela a inflação mais alta do mundo.

A brutal desvalorização da moeda venezuelana, tanto no mercado oficial quanto no paralelo, sufoca uma economia dolarizada que depende do petróleo e das importações.

A atenção de Maduro está focada no sul do Caribe, onde os Estados Unidos mobilizaram uma frota naval com o argumento de combater o narcotráfico. O presidente venezuelano acredita que Washington busca invadir o país para promover uma mudança de regime político.

Este também é um tema central na conversa do venezuelano comum, embora chegar ao final do mês seja a prioridade absoluta.

Yubiris Reyes Velásquez, uma professora aposentada, recebe uma aposentadoria em bolívares equivalente a cerca de 120 dólares mensais (R$ 638,16).

"Oficialmente temos a moeda, o bolívar, mas os preços estão fixados em dólares, que aumentam diariamente. É impossível cobrir as necessidades básicas", disse à AFP esta profissional que vende doces para complementar sua renda.

O dólar paralelo rege quase todas as transações entre quem compra ou vende. No mercado oficial, o dólar é cotado a 178 bolívares (5.300 reais), mas no mercado clandestino está perto de 300 (8.900 reais), um valor 73% maior.

O governo conseguiu conter a taxa de câmbio até 2024 para frear a inflação. Mas neste ano não conseguiu mais manter o controle, e o FMI projeta, até o final do ano, uma inflação de 254%, a maior do mundo.

- "Grande poder de compra" -

Maduro destaca o "grande poder de compra do povo venezuelano" e afirma que "a economia real cresce a um ritmo de 9%".

O presidente ordenou antecipar o Natal para 1º de outubro. Atribui os problemas a outra "guerra" com os Estados Unidos, de tipo "econômico, comercial, monetário e financeiro".

"Estamos imersos em uma crise política, econômica, e ninguém fala sobre isso. O dólar continua subindo. Está a 170. Você vai a um hospital e tem que levar até as luvas para os médicos", aponta o operário Freddy Molina, de 47 anos.

Hoje, a maior pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra Maduro não vem do mar, mas sim de sanções aplicadas sob o pretexto de punir violações aos direitos humanos e atentados contra a democracia.

Empresas petrolíferas estrangeiras precisam de licenças de Washington para se associarem à enfraquecida estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA), enquanto o país carece de capitais para produzir mais petróleo, aumentar exportações e atrair mais divisas oficiais.

Mas Maduro — acusado de fraude eleitoral — não tem o reconhecimento dos Estados Unidos, da União Europeia e de vários países da região, o que dificulta faturar exportações petrolíferas estatais ou atrair investimentos massivos de empresas ocidentais.

E como Trump intensificou essas sanções, há menos dólares no sistema, segundo operadores.

O petróleo, no entanto, mantém a economia de pé.

"A receita petrolífera nacional com exportações cresceu em agosto. O volume de produção e exportações está em níveis jamais vistos desde 2019", explicou o economista Daniel Barráez, coordenador de um relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, que prevê um crescimento econômico "robusto" de 5,3% neste ano.

Segundo a Opep, a Venezuela produziu 936.000 barris por dia (bpd) em agosto, contra 867.000 bpd em dezembro de 2024, apesar das sanções.

- Uma economia precária -

A diferença cambial é o segundo maior problema para as empresas, depois dos altos impostos, segundo a associação industrial Conindustria.

Nas lojas, os preços finais em bolívares são calculados com base no dólar paralelo, mas são exibidos pela taxa oficial, incluindo a diferença. Mais combustível para a inflação.

As pessoas iam aos bancos para trocar seus bolívares por moedas estrangeiras, mas a oferta secou. "Então recorrem ao mercado paralelo, o que pressiona a taxa para cima", explica um operador que preferiu manter o anonimato.

O governo nega a existência desse mercado paralelo e prendeu pessoas por divulgar preços ou cobrar pela "taxa criminosa" paralela.

Mas em aplicativos permitidos pelo governo, como Kontigo e Crixto, que operam com "moedas estáveis" e criptomoedas, o dólar paralelo era vendido na segunda-feira a cerca de 288 bolívares (8.600 reais).

"As pessoas tentam se proteger com dólares porque sabem que os bolívares são como notas do jogo Monopoly e amanhã não valerão nada", resume o economista José Manuel Puente, professor da universidade IE da Espanha, que prevê um aumento da pobreza.

S.Urciuoli--PV

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