Pallade Veneta - O que explica a hegemonia do Brasil na Libertadores feminina?

O que explica a hegemonia do Brasil na Libertadores feminina?


O que explica a hegemonia do Brasil na Libertadores feminina?
O que explica a hegemonia do Brasil na Libertadores feminina? / foto: Adrian Dennis - AFP/Arquivos

Os clubes brasileiros consolidaram uma hegemonia na Copa Libertadores feminina, que começa nesta semana em Quito, graças a orçamentos robustos, à confiança de vencer repetidamente e a uma aposta séria nos projetos de futebol feminino.

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As representantes do Brasil venceram 14 das 17 edições do torneio. No Equador, a partir da próxima quinta-feira (15) até o dia 31 de outubro, elas têm tudo para ampliar esse domínio.

O Corinthians, atual tricampeão, é a cara de um país que não dá sinais de que será destronado e que será o primeiro da América do Sul a sediar a Copa do Mundo feminina, em 2027.

A seguir, quatro pontos-chave que explicam o sucesso do Brasil na Libertadores:

1. Incentivo

O crescimento do futebol feminino brasileiro começou a acelerar em 2019, quando a CBF obrigou todos os clubes das primeira e segunda divisões masculinas a terem equipes femininas.

O Brasil foi além da exigência da Conmebol para os participantes de seus torneios masculinos: eles devem ter times femininos ou, caso contrário, não podem disputar a Libertadores ou a Sul-Americana.

Em outros países sul-americanos, por outro lado, muitas equipes foram criadas simplesmente para cumprir uma exigência formal, mas sem um planejamento esportivo de longo prazo.

"No Brasil, as equipes disputam competições durante pelo menos nove ou dez meses ao ano. Até mesmo os torneios estaduais contribuem para ampliar o período de atividade e, consequentemente, para oferecer contratos mais longos às atletas", disse à AFP um representante do Corinthians feminino.

2. O dinheiro faz a diferença

A superioridade financeira dos clubes brasileiros também alimenta essa disparidade. Essa situação se repete também no futebol masculino, no qual as equipes do Brasil venceram as últimas sete edições da Libertadores.

O Palmeiras feminino, outra potência, trabalha com um orçamento anual que varia entre R$ 15 milhões e R$ 25 milhões, segundo confirmou uma fonte do clube à AFP.

Em contrapartida, várias equipes de primeira linha na Colômbia, na Argentina ou no Chile operam com orçamentos próximos a R$ 2,5 milhões.

A diferença também se reflete no mercado de transferências.

O Brasil se dá ao luxo de realizar transferências milionárias, como a de Amanda Gutierres, do Palmeiras para o Boston Legacy, por US$ 1,1 milhão (mais de R$ 5 milhões) em 2025. A realidade em grande parte da América do Sul é diferente: as mudanças de clube costumam ocorrer sem custos, pois as jogadoras chegam como agentes livres.

3. Rede de patrocinadores

A vantagem não se consolidou totalmente com base no dinheiro dos patrocínios de casas de apostas esportivas, um setor que investiu milhões no futebol masculino e que foi recentemente proibido no Brasil.

Segundo Fabiana Bentes, presidente do Instituto Sou do Esporte, as competições femininas conseguiram construir uma rede de patrocinadores mais diversa.

"A restrição às apostas pode afetar os clubes; a questão da insegurança jurídica é muito grave e isso pode recair sobre o esporte feminino, mas não necessariamente sobre a estrutura do futebol feminino, porque conta com essas outras marcas", disse Fabiana à AFP.

4. Contraste com o resto do continente

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou uma lei para tornar o futebol feminino uma "prioridade" na política pública do país.

Nos demais países da América do Sul, no entanto, as mulheres elas continuam enfrentando dificuldades básicas para competir.

Para a ex-jogadora da seleção colombiana Nicole Regnier, o contraste entre o Brasil e o restante da região é evidente, pois muitos clubes ainda veem o futebol feminino como uma obrigação e não como um produto capaz de gerar receitas.

"Aqui na Colômbia, por exemplo, o jogo de ida da final do futebol profissional feminino foi disputado em Tunja [cidade a 130 quilômetros de Bogotá] e não no El Campín [principal estádio da capital], porque havia um show", disse Regnier à AFP.

Em setembro, as jogadoras do San Lorenzo, da Argentina, denunciaram "irregularidades e falhas" no clube, incluindo problemas de cobertura médica e transporte.

"No último jogo contra o Banfield, fora de casa, não tivemos ônibus para irmos para a partida, tendo que recorrer a carros de aplicativo e/ou particulares", informaram as atletas em um comunicado.

No Equador, o El Nacional viveu uma situação ainda mais crítica em maio: teve que disputar um jogo da Superliga feminina com apenas sete jogadoras devido a problemas econômicos que impediram o clube de inscrever mais atletas. Meses depois, a equipe foi rebaixada.

A.dCosmo--PV