Pallade Veneta - Cuba aprova reformas de livre mercado sem precedentes

Cuba aprova reformas de livre mercado sem precedentes


Cuba aprova reformas de livre mercado sem precedentes
Cuba aprova reformas de livre mercado sem precedentes / foto: YAMIL LAGE - AFP

O Parlamento cubano aprovou nesta quinta-feira (18), por unanimidade, em uma reunião extraordinária, um amplo programa de reformas em favor do livre mercado, uma mudança inédita para a ilha comunista mergulhada em uma profunda crise econômica, sob pressão de Washington.

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Mais de 400 deputados da Assembleia Nacional do Poder Popular foram chamados a se pronunciar sobre 176 propostas que abrangem numerosos setores da economia, apresentadas pouco antes pelo primeiro-ministro, Manuel Marrero.

As reformas já contavam com o aval da cúpula do Partido Comunista (único) e do ex-presidente Raúl Castro, de 95 anos e ainda influente na vida política do país.

As mudanças, votadas com o braço erguido, incluem a organização das empresas privadas e estatais, o sistema bancário, o turismo, a agricultura, o investimento estrangeiro, os impostos, os salários e o mercado cambial.

"Trata-se do programa de reforma econômica mais profundo já anunciado nos últimos 70 anos da história econômica do país, desde a vitória da Revolução de 1959", declarou à AFP o economista cubano Daniel Torralbas, radicado em Londres.

Três anos após a revolução liderada por Fidel Castro em 1959, as grandes empresas privadas, cubanas ou estrangeiras, foram nacionalizadas, seguidas pelos pequenos comércios e negócios familiares em 1968.

Desde então, ajustes recorrentes foram realizados no dogma da economia socialista, mas sem questionar os fundamentos de um sistema amplamente planejado e centralizado.

Em 2021, porém, pela primeira vez em meio século, foram autorizadas as micro, pequenas e médias empresas (mipymes), com até 100 trabalhadores, para enfrentar a crise e o descontentamento social.

Atualmente, elas somam mais de 10 mil e empregam um terço da população economicamente ativa.

- "Mudanças drásticas" -

Entre as reformas adotadas nesta quinta-feira destacam-se a transformação das empresas estatais em sociedades comerciais "por ações ou de participação", a autorização para empresas privadas com mais de 100 empregados, a participação de capital estrangeiro no setor privado e a abertura de contas em moeda estrangeira para pessoas físicas.

A agricultura, o turismo, o setor bancário e o mercado cambial ficarão abertos ao investimento privado, tanto nacional quanto estrangeiro.

Os cubanos também poderão possuir mais de uma empresa privada e participações em outras sociedades. Além disso, será permitida a negociação salarial dentro das empresas.

"A essência das transformações que estão sendo propostas gira em torno da ampliação do papel do setor privado na economia cubana (...) e há mudanças drásticas; não estamos falando de mudanças cosméticas", destacou Torralbas.

No entanto, por enquanto não foi anunciado nenhum calendário de implementação, tampouco se cogita questionar o sistema político dominado pelo único partido permitido, o Partido Comunista.

"São transformações para corrigir rumos, mas sempre em defesa do socialismo", declarou o presidente Miguel Díaz-Canel após a votação dos deputados.

- “Decisões soberanas” -

"Não estamos fazendo isso por causa das pressões dos ianques (...) estamos fazendo de maneira soberana", acrescentou Díaz-Canel, em referência ao pacote de reformas aprovado menos de uma semana depois de seu anúncio.

Essas reformas ocorrem enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aplica uma política de máxima pressão sobre a ilha, submetida há quase cinco meses a um bloqueio petrolífero.

Esse bloqueio levou a economia cubana, que já sofre embargo desde 1962, à beira do colapso, provocando apagões generalizados, além da escassez de alimentos, combustível, água potável e medicamentos.

Washington não esconde seu desejo de ver uma mudança de modelo econômico e até mesmo de regime na ilha situada a cerca de 150 quilômetros da costa da Flórida.

"Se eles tomarem decisões inteligentes, teremos uma relação muito melhor com essa ilha", declarou nesta quinta-feira o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, ao ser questionado na Casa Branca sobre uma possível intervenção militar em Cuba após a assinatura de um acordo entre Washington e Teerã.

N.Tartaglione--PV