Pallade Veneta - Padre DJ homenageia o papa Francisco em 'rave' em Buenos Aires

Padre DJ homenageia o papa Francisco em 'rave' em Buenos Aires


Padre DJ homenageia o papa Francisco em 'rave' em Buenos Aires
Padre DJ homenageia o papa Francisco em 'rave' em Buenos Aires / foto: Tomas CUESTA - AFP

Jeans, colarinho clerical e o terço no pulso: foi assim que o padre português Guilherme Peixoto, o padre DJ, compareceu para uma apresentação de música eletrônica no sábado (18) em uma "rave" na praça mais emblemática da Argentina, um evento em homenagem ao papa Francisco, um ano após sua morte.

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Versões techno da trilha sonora de Super Mario e de "Ameno (dori me)", o clássico dos anos 1990 que emula um canto gregoriano, foram misturadas a trechos de discursos de Francisco na Praça de Maio, centro político dos argentinos transformado em uma grande festa católica.

Da mesa de som, Peixoto animava dezenas de milhares de pessoas, com a catedral de Buenos Aires de um lado e a sede do governo atrás.

O objetivo é fazer com que "a música consiga tocar os corações a tal ponto que os jovens voltem para casa com vontade de mudar o mundo", disse Peixoto à AFP antes da apresentação.

No palco, uma cruz iluminada era observada acima do padre. Um telão exibia a imagem de uma grande pomba branca como símbolo do Espírito Santo.

A apresentação começou com um áudio de Francisco: "A Igreja não é uma ONG". Duas horas depois, o padre português de 52 anos recordou a mensagem do falecido papa aos jovens: "Façam bagunça".

Trechos de "Sólo le pido a Dios", do músico argentino León Gieco, foram tocados em meio a encíclicas papais. O público cantou. Muitos usavam auréolas com luzes brancas que os vendedores ambulantes comercializavam por menos de 10 dólares.

Tomás Ferreira, um advogado de 25 anos, não é católico, mas considerou muito bom "que o padre tente unir as pessoas com a música eletrônica e a religião".

"A religião está se modernizando e isso é bom", disse à AFP. Ele já tinha comparecido a uma apresentação de Peixoto em Lisboa em 2023.

- De Guimarães à cabine de DJ -

Natural de Guimarães, Peixoto é padre da Arquidiocese de Braga, no norte de Portugal, desde 1999. Suas missas dominicais, explica sorridente, "são normais, é uma liturgia normal".

Ele foi seminarista aos 13 anos, mas sempre manteve um pé na música: na juventude tocou órgão em uma banda de pop-rock com colegas do seminário. "Ir para a igreja e sair para um bar ou um clube para ouvir música era igual, era normal", recordou à AFP.

No início dos anos 2000, organizou noites de karaokê para arrecadar fundos para sua paróquia endividada e foi então que começou a fazer mixagens. Ele comprou equipamento, começou a assistir vídeos no YouTube e aprendeu sozinho durante anos.

"Quando comecei a aprender a mixar, também comecei a aprender a ganhar uma cultura de música eletrônica. Já não era apenas para entender exatamente como se organiza um set, mas também o que é isso de uma viagem de música eletrônica. Foi um processo longo", contou Peixoto.

- Momento chave -

A pandemia foi o momento crucial: "O mundo parou", lembra. Ele começou a fazer lives no Facebook, os vídeos viralizaram e ele recebeu o apelido de "padre DJ".

"O techno começou a ficar um pouquinho mais melódico, que é o que eu toco agora", disse Peixoto. "O techno não é tão forte como tocava antes, para permitir também que possa ser um veículo que transmita mensagens, pensamentos, músicas ao longo do set".

Que mensagens? "Mensagens de paz", responde.

O padre Peixoto já tocou em Lisboa, Beirute, México e Rio de Janeiro, entre outras cidades. Mas, para ele, o grande momento aconteceu em uma apresentação em Ibiza, em julho de 2024, quando celebrou 25 anos de sacerdócio tocando para milhares de pessoas.

"Eu estava muito apreensivo para saber como, em Ibiza, em uma cultura de música eletrônica total e em um ambiente de férias, eles iam olhar para um padre ali na cabine".

Mas o temor passou rápido. "Eu senti a comunhão entre todos, foi um momento importante".

Ele disse que "não sabia se estava transmitindo a energia ou recebendo toda a força". "Provavelmente os dois. Mas foi esse momento, esse momento chave".

A comunhão o convenceu a seguir com a música. "Arrepia quando vejo os jovens, quando sinto que estamos todos unidos na pista de dança, que estamos todos nesta viagem juntos".

A.Fallone--PV